
Contagem regressiva. Mês, semana, dias. A ansiedade toma conta do meu ser. Com o destino incerto, pergunto-me hora após hora qual será o meu destino. A carta misteriosamente colocada sob meu travesseiro durante a madrugada de fevereiro dizia apenas para comparecer no aeroporto no dia e hora marcados.
Enfim, o dia chega. Lá estou eu, de macacão, botas e capacete, perdido num aeroporto. Para onde vou? A única informação que tinha na carta era que o embarque era às 2:30 no portão 8, além de informar a maneira como deveria estar trajado. A ansiedade estava me deixando hiperativo, andava de um lado para o outro sem saber em que pensar.
Duas e vinte e cinco. Eu era o único esperando o portão se abrir. Estava roendo unhas, suando frio. O portão era escuro, não se sabia o que passava pelo outro lado. Exatamente às 2:30, o portão se abre, sozinho. Minha tensão aumenta, começo a ter calafrios. Em cima do portão, uma luz vermelha indicava que eu ainda não poderia entrar. Ao ficar verde, fechei os olhos, respirei fundo, e dei o primeiro passo, sem saber o que ali me esperava.
Ao entrar, fui surpreendido por uma voz robótica dizendo para não me assustar, o que era praticamente impossível àquela altura do campeonato. Novamente a voz se propaga, dizendo para eu colocar o capacete. Coloco-o imediatamente, e em seguida, turbinas são acionadas. Sinto alguns braços mecânicos me tocando, como se estivessem me posicionando num local anteriormente demarcado. Repentinamente, uma contagem regressiva, agora em segundos, é acionada. Começo a pensar coisas absurdas, e um filme de toda minha vida começa a passar em minha mente. Nele posso rever meus avôs, vejo meus pais, meus amigos. Lembranças da minha infância, namoradas, meus maiores sonhos. Ao voltar à realidade, a contagem estava perto do fim. Dei um último suspiro.
Um clarão havia me cegado por alguns segundos. Me sentia estranho, leve, um prazer impagável me dominava. A sensação era tão boa que eu torcia para que aquele momento de cegueira durasse mais alguns bons minutos. Mas ao abrir os olhos, a sensação que tive foi melhor ainda; eu estava flutuando, podia voar.
Fiquei algum tempo brincando com minha nova condição, voava de um lado para o outro, dava cambalhotas no ar. Até que um papel cai do meu bolso. Esse papel, na verdade, continha uma missão. E essa missão consistia em visitar todos os aeroportos do mundo, e neles, plantar uma árvore. Os frutos dessa árvore eram mágicos. Tinham o poder de levar pessoas pobres, sem condições de pagar por uma passagem, para qualquer parte do mundo. Elas teriam 24 horas para conhecer qualquer parte do mundo que desejassem. O fruto da árvore seriam suas passagens.
Como podia voar, terminei minha missão em apenas alguns dias, tempo recorde. Ao voltar pra casa, com aquela sensação maravilhosa de dever cumprido, havia uma nova carta. Desta vez, a carta continha um agradecimento, em nome de toda a humanidade, e também algumas sementes. Sementes de feijões-mágicos. A carta ainda dizia que ao plantá-lo, o feijão cresceria até o céu, e que de lá de cima, eu poderia ver a felicidade de todas as pessoas que eu havia ajudado. A felicidade estava claramente estampada em seus rostos, e isso me causava uma euforia extrema, uma felicidade incalculável.
Acordei com um sorriso de orelha a orelha. Logo percebi que aquilo havia sido apenas um sonho. Deitei novamente na cama, com os braços sob o travesseiro, desapontado. Estranho. Jogo o travesseiro longe. Havia algo ali. Uma carta. E nela dizia:
“Favor comparecer ao aeroporto, dia 20 de dezembro, às 2:30. Embarque no Portão 8.”

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